Medieval ll


Você me pede pra eu ser mais moderno
Que culpa que eu tenho
É só você que eu quero

As vezes eu amo e construo castelos
As vezes eu amo tanto que tiro férias
E embarco num tour pro inferno

Será que eu sou Medieval?
Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova idade média.
Na mídia da novidade média.

Olha pra mim, me dê a mão, depois um beijo
Em homenagem a toda distância e desejo
Mora em mim que eu deixo as portas sempre abertas
Onde ninguém vai te atirar as mãos vazias nem pedras

Eu acredito nas besteiras que eu leio no jornal
Eu acredito no meu lado português sentimental
Eu acredito em paixão e moinhos lindos,
Mas a minha vida sempre brinca comigo,
De porre em porre vai me desmentindo

Será que eu sou Medieval?
Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova idade média.
Na mídia da novidade média.
Cazuza

UMA CRÔNICA.


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia...
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra
vista que não as janelas do redor. E porque não tem vista, logo se
acostuma a não olhar para fora. E porque não abre as cortinas, logo se
acostuma a acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o
sol, o ar, e esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã de sobressalto porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A comer sanduíche porque não
dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A deitar cedo
e dormir pesado sem ter vivido.
A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre a guerra. E aceitando a
guerra, aceita os mortos e que haja número para mortos. E, aceitando os
números, não acreditamos nas negociações de paz. E, não aceitando as
negociações de paz, aceita a ter todo dia, o dia a dia da guerra, dos
números de longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não
posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser
ignorado quando precisa tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por
tudo o que se deseja e o de que se necessita. E a lutar para ganhar o
dinheiro com o que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila
para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez
pagará mais. E a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro, para
ter com que pagar nas filas em que se cobra. (...)
A gente se acostuma a poluição. À salas fechadas de ar condicionado. À luz
artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte
dos rios. Se acostuma a não ouvir os passarinhos, a não ouvir o galo de
madrugada, a não colher fruta no pé.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,
tentando não perceber, vai afastando uma dor daqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e
sua no resto do corpo, conformado. Se o trabalho está duro, a gente se
consola pensando no final de semana. E, se no fim de semana não há muito o
que fazer, a gente vai dormir cedo e fica satisfeito porque, afinal, está
sempre com o sono atrasado.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta e que,gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesmo.


Marina Colassanti.

Solidão!


"...Que minha solidão me sirva de companhia.
Que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo". Clarice Lispector.

Consolo na praia


"Vamos, não chores.

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis carro, navio, terra.

Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,em voz mansa, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizam.

Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas.

Estás nu na areia, no vento...

Dorme, meu filho".


Carlos Drummond De Andrade.

Sem tempo para os mediocres.


“... Sem tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em lugares onde desfilam egos inflados.

Não tolero gabolices.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte...

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

Minha alma tem pressa.”


Rubem Alves.